Excesso de ciúmes e controle pode anteceder agressões”, alerta delegada da DDM de Assis
Laís Rays destaca desafios, casos marcantes e caminhos para denunciar agressões.
Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o portal Abordagem Notícias conversou com a delegada da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Assis, Laís Rays, sobre a realidade da violência doméstica e familiar na cidade e na região.
À frente da unidade desde agosto de 2025, a delegada relata o volume expressivo de ocorrências registradas, fala sobre casos que marcaram sua atuação e explica quais são os tipos de violência mais frequentes atendidos pela DDM. Na entrevista, também orienta sobre os primeiros sinais de relacionamentos abusivos, destaca os canais disponíveis para denúncia e reforça a importância de buscar ajuda diante de qualquer situação de agressão.
A seguir, confira a entrevista completa:
Há quanto tempo você está à frente da Delegacia de Defesa da Mulher de Assis e como avalia esse período de atuação na cidade?
Estou à frente da unidade desde agosto de 2025 e, nesse período, observo o grande volume de registros de ocorrência relacionados à violência doméstica e familiar. Também atuo de forma concomitante na Delegacia de Defesa da Mulher de Paraguaçu Paulista, o que permite fazer uma comparação prática entre as unidades. Mesmo proporcionalmente, a demanda registrada em Assis é significativamente maior, o que evidencia a dimensão do trabalho desenvolvido na cidade e reforça a importância da atuação na adoção das providências legais para apuração dos fatos e responsabilização dos autores.
Nesse período, houve algum caso que mais te chocou ou marcou pela gravidade da situação?
Entre os casos que mais me marcaram nesse período, recordo do feminicídio ocorrido na cidade e também de um episódio de lesão corporal em que a vítima ficou com o rosto bastante lesionado em razão das agressões. Em ambos os casos, o fato de terem ocorrido em via pública chama muita atenção, pois demonstra a audácia do agressor ao praticar esse tipo de violência. Situações envolvendo agressão contra mulher grávida também chocam bastante, sobretudo pela covardia diante da condição de maior vulnerabilidade da vítima.
O Brasil tem registrado aumento nos casos de feminicídio. Dentro da realidade de Assis e região, como você avalia esse cenário?
Esse cenário pode ser atribuído, em parte, ao fato de que as vítimas têm se encorajado cada vez mais a registrar as ocorrências. Hoje há uma maior divulgação, inclusive por meio da internet e dos canais oficiais da própria Polícia Civil, orientando sobre como e onde buscar ajuda. Ferramentas como a DDM Online e o boletim de ocorrência eletrônico também facilitam esse acesso e acabam contribuindo para que mais casos cheguem ao conhecimento das autoridades. Em toda a nossa região, percebe-se um aumento significativo no número de registros.
Quais são hoje os tipos de violência mais registrados na DDM de Assis?
Atualmente, os registros mais frequentes são de violência física e psicológica. No âmbito das infrações penais que mais apuramos, destacam-se os crimes de ameaça, lesão corporal e também os casos de descumprimento de medidas protetivas de urgência.
Muitos casos graves começam com agressões ou ameaças. Quais são os primeiros sinais de um relacionamento abusivo que precisam ser reconhecidos?
Começam com sinais que, num primeiro momento, podem parecer pequenos, mas que já indicam um comportamento abusivo. Entre eles estão o excesso de ciúmes, tentativas de controle sobre a vida da vítima, como proibir amizades, monitorar redes sociais, controlar a forma de se vestir ou os lugares que frequenta, além de ofensas, humilhações e ameaças. Essas atitudes costumam evoluir gradativamente e, muitas vezes, acabam culminando em agressões físicas. Por isso, é importante reconhecer esses sinais e procurar romper esse ciclo o quanto antes.
Mesmo com a Lei Maria da Penha e medidas protetivas, muitas vítimas ainda têm medo de denunciar. O que você diria para quem está vivendo uma situação de violência em Assis, mas ainda não procurou ajuda?
É compreensível que muitas ainda sintam medo ou insegurança em denunciar, especialmente quando o agressor faz parte do convívio familiar. No entanto, é importante que saibam que não estão sozinhas e que existem mecanismos legais justamente para protegê-las. Um importante instrumento de proteção é o pedido de medida protetiva. A vítima pode manifestar esse pedido na unidade policial e, uma vez deferida pelo Poder Judiciário, o agressor é formalmente notificado das restrições impostas. Caso descumpra essas medidas, poderá inclusive ser preso em flagrante. Por isso, a orientação é procurar ajuda o quanto antes, seja na Delegacia de Defesa da Mulher, pela DDM Online ou por meio do boletim de ocorrência eletrônico, para que as providências legais possam ser adotadas e o ciclo de violência interrompido.
Que orientação você daria para familiares, amigos ou vizinhos que desconfiam que alguém esteja sendo vítima de violência? Como podem ajudar sem colocar a vítima em risco?
Familiares, amigos e até vizinhos têm um papel muito importante nesses casos. Muitas vezes, a própria vítima tem medo ou dificuldade em procurar ajuda, e o apoio de pessoas próximas pode fazer diferença. A orientação é que, ao perceber sinais de violência, tentem oferecer apoio e incentivo para que procure ajuda especializada. Caso entendam que a situação é grave, também podem procurar a Delegacia de Defesa da Mulher para relatar os fatos ou até mesmo realizar denúncia anônima por meio do Disque 100, permitindo que, ao tomarmos conhecimento da situação, as providências cabíveis sejam adotadas.
Quais são os canais e serviços disponíveis em Assis para quem precisa de apoio e proteção?
Em Assis, quem está em situação de violência pode procurar diretamente a Delegacia de Defesa da Mulher, onde recebe atendimento especializado e pode registrar a ocorrência, solicitar medidas protetivas e receber orientação sobre os próximos passos. Além do atendimento presencial, também existem canais que facilitam o acesso à ajuda, como a DDM Online e o boletim de ocorrência eletrônico, que permitem registrar os fatos pela internet. Também há serviços telefônicos de apoio e denúncia, como o Ligue 180 e o Disque 100, que recebem denúncias e orientam sobre como buscar proteção. Importante destacar que, após as 18h até as 8h, período em que a Delegacia de Defesa da Mulher não está em expediente, a vítima pode se dirigir ao plantão policial localizado na CPJ (Central de Polícia Judiciária) para registro da ocorrência e adoção das providências cabíveis.
Neste Dia Internacional da Mulher, que mensagem você gostaria de deixar para Assis e para a sociedade sobre o enfrentamento da violência?
A mensagem que deixo é de conscientização e também de encorajamento. A violência contra a mulher é uma realidade que precisa ser enfrentada por toda a sociedade. Nenhuma mulher deve se sentir sozinha ou acreditar que precisa suportar situações de violência. É fundamental que as vítimas saibam que existem mecanismos de proteção e instituições preparadas para acolher, orientar e adotar as medidas legais necessárias. Buscar apoio psicológico também é muito importante, pois ajuda a lidar com os impactos emocionais da violência e a reconstruir autonomia e segurança.
Fonte: Da Redação
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