NOTÍCIA

23/06/2022

O caso do procurador que espancou a colega vai muito além de sequestro de amígdala

Os socos e pontapés foram sentidos por todos que assistiram ao vídeo.


O caso do procurador que espancou a colega vai muito além de sequestro de amígdala

A emoção acontece muito rápido: 0,25 segundos. Em 0,50 você é capaz de reconhecer qual emoção está sentindo e em 1 segundo, você toma uma decisão sobre o que fazer. Esse é o tempo que leva para reagirmos a algo que nos desperte raiva, medo e tristeza, por exemplo.

Despertado a emoção em seguida vem a reação. Quem usa a inteligência emocional e quem tem total descontrole. O vídeo do promotor de justiça agredindo uma colega de trabalho que viralizou na internet e tem provocado muita indignação vai além da total falta de Inteligência Emocional. A procuradora-geral da cidade de Registro, interior de São Paulo, foi agredida a socos e chutes depois de abrir um processo administrativo contra o colega, por conta de sua postura no ambiente de trabalho. O vídeo é chocante. A promotora agredida, Gabriela Samadello Monteiro de Barros, chegou a dizer em entrevista que até imaginava que ele poderia ofendê-la, com palavras, mas não imaginava que chegaria a tanto. Que ele já tinha sido grosseiro com outra funcionária do setor, que cobrou providências por estar com medo de trabalhar no mesmo ambiente com ele. O agressor, Demétrius Oliveira de Macedo, foi suspenso, talvez perca até o cargo e ainda vai enfrentar um processo movido pela colega.

Nesse caso é nítido que o descontrole o levou a agir. A psicóloga e pós graduada em neurociência Shana Wajntraub explica que toda vez que se parte para uma agressão física o controle emocional simplesmente não existe. Ao receber a informação da abertura do processo administrativo, de uma mulher ter reclamado das grosserias do colega, provavelmente gerou um gatilho. Não dá pra saber qual foi o gatilho no caso do promotor, mas acionou um mecanismo que o levou a extrema ignorância.

Os socos e pontapés foram sentidos por todos que assistiram ao vídeo. Uma agressão brutal, que vem revoltando a todos.

A agressão física é o extremo de uma reação quando você não consegue controlar a emoção. Nesse caso vai além de deixar a amígdala cerebral falar mais alto. “A amígdala faz parte do chamado cérebro profundo, no qual primam as emoções básicas, tais como a raiva ou o medo e também o instinto de sobrevivência. Básicas, sem dúvida, para a evolução de qualquer espécie. A amígdala, esta estrutura em forma de amêndoa, é própria de todos os mamíferos e se localiza na profundidade dos lóbulos temporais, fazendo parte do sistema límbico e processando tudo relacionado a nossas reações emocionais. E aí tem uma série de fatores que podem colaborar para que esses 0,25 segundos não sejam calados. Até fatores hormonais podem afetar a reação de uma pessoa, e coisas do dia a dia como dormir mal, comer mal, e nesses casos a reação negativa pode ser muito maior.” explica a psicóloga e pós graduada em neurociência Shana Wajntraub.

O promotor, Demétrius, num primeiro momento foi o que chamamos de sequestrado pelas amígdalas cerebrais o sentimento negativo falou mais alto. Segundo Shana Wajntraub: “A emoção básica nesse caso venceu. Primeiro vem toda essa explosão que está dentro do nosso sistema límbico, e na sequência, só depois, nós usamos o córtex pré-frontal que é o nosso lado racional para reagir. É quando a pessoa pode respirar e pensar ‘não vou falar ou não vou fazer isso agora porque se eu fizer ou falar vai ser ruim posso me arrepender depois.’ Isso é a evolução da espécie.” finaliza Shana.

O promotor disse para a polícia que sofria assédio moral no local de trabalho. Não ficou preso porque não houve flagrante. Apresentou um “motivo” para ter espancado uma pessoa fisicamente menor do que ele.

Só uma investigação mais profunda poderá esclarecer o que mais há por trás de tanta violência e ódio. Talvez só trabalhar a inteligência emocional nesse caso, não seja suficiente. Mas poderia ser um começo.

Buscar entender que faltaram aqueles segundos de racionalidade para agir da forma como agiu. E principalmente, precisamos enquanto sociedade reavaliar o crescente discurso de violência. A violência não pode ser normalizada, nem aceita como forma de solução para qualquer problema em nossa sociedade. Como bem disse Isaac Asimov, "A violência é o último recurso do incompetente."

 


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