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ARTIGO • 15/07/2026 às 11:56

Quando uma cidade deixa de administrar problemas e passa a administrar crises

Por Rodrigo de Souza: Mestre em Comunicação e cidadão comprometido com o fortalecimento de Assis.

Quando uma cidade deixa de administrar problemas e passa a administrar crises

Existe uma diferença significativa entre governar uma cidade e apenas reagir aos acontecimentos.

Toda administração pública enfrenta dificuldades. Nenhum governo é perfeito, nenhum gestor acerta sempre e nenhuma cidade está imune a desafios.

Entretanto, chega um momento em que é necessário fazer uma reflexão mais profunda: quando uma crise é apenas um fato isolado e quando uma sucessão de crises passa a indicar que é preciso olhar além dos acontecimentos individuais?

Assis vive, há algum tempo, um período em que sucessivos episódios passaram a ocupar mais espaço no debate público do que os projetos, as entregas e o planejamento para o futuro da cidade.

Independentemente da posição política de cada cidadão, esse cenário deveria preocupar a todos. Uma cidade não evolui quando dedica a maior parte de sua energia para administrar crises.

Ela cresce quando consegue concentrar seus esforços em desenvolvimento econômico, saúde, educação, mobilidade urbana, geração de empregos, cultura, esporte e qualidade de vida.

Cada nova crise produz um efeito que muitas vezes passa despercebido. A administração desloca tempo, energia e recursos para responder aos acontecimentos.

Secretários deixam de discutir projetos estruturantes para prestar esclarecimentos. Servidores trabalham sob pressão. A população perde confiança e o debate sobre o futuro acaba sendo substituído por discussões sobre o problema da vez.

Talvez esse seja o maior prejuízo causado por uma sucessão de crises: o futuro deixa de ser prioridade.

Muito se fala sobre pessoas. Eu prefiro falar sobre sistemas.

Boas administrações não dependem exclusivamente da competência ou da honestidade de quem ocupa um cargo público. Elas dependem, sobretudo, de processos bem estruturados, mecanismos eficientes de controle interno, auditorias permanentes, gestão de riscos, transparência e prestação de contas.

Esses conceitos podem parecer técnicos, mas representam algo bastante simples: criar mecanismos capazes de identificar falhas antes que elas se transformem em grandes problemas.

Não por acaso, organizações públicas e privadas investem cada vez mais em prevenção.

Prevenir custa menos do que remediar. Corrigir custa menos do que reconstruir. E aprender com os erros custa muito menos do que repeti-los.

Por isso, quando uma cidade passa a conviver com crises sucessivas, talvez a pergunta mais importante deixe de ser "quem errou?" e passe a ser "o que precisa ser aperfeiçoado para que situações semelhantes não voltem a acontecer?".

Infelizmente, a política brasileira criou o hábito de discutir culpados antes mesmo de discutir soluções.

De um lado estão aqueles que condenam antes da conclusão das investigações. De outro, aqueles que defendem pessoas antes que todos os fatos sejam conhecidos.

Nenhum desses extremos fortalece a democracia ou contribui para uma administração pública melhor.

O fortalecimento das instituições exige respeito ao devido processo legal, à ampla defesa e ao trabalho dos órgãos responsáveis pela apuração dos fatos.

Independentemente do resultado de qualquer investigação, existe uma obrigação que pertence a toda administração pública: transformar cada crise em oportunidade de aperfeiçoamento.

Cidades que aprendem com seus erros tornam-se mais fortes. Cidades que apenas administram crises acabam, muitas vezes, convivendo com novos problemas sem atacar suas causas.

Assis possui uma história construída por pessoas trabalhadoras, empreendedoras e comprometidas com o bem comum.

Essa trajetória merece que o debate público volte a ser pautado por planejamento, inovação, eficiência administrativa e desenvolvimento sustentável.

Obras são importantes. Recursos públicos são importantes. Grandes projetos também são.

Mas existe um patrimônio ainda mais valioso: a confiança da população em suas instituições.

A confiança é construída lentamente e pode ser abalada em pouco tempo.

Recuperá-la exige mais do que discursos; exige ações concretas, aperfeiçoamento dos processos, fortalecimento dos mecanismos de controle e compromisso permanente com o interesse público.

Esse, talvez, seja o maior desafio da administração pública moderna: não apenas resolver problemas quando eles surgem, mas construir uma gestão capaz de reduzir, cada vez mais, a possibilidade de que eles aconteçam.

 

Fonte: Rodrigo de Souza

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