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USINA NOVA AMERICA
ARTIGO • 25/02/2026 às 12:32

Quanto vale uma vida?

Rodrigo convoca à reflexão: a vida é dom de Deus. Justiça se faz com lei, não com violência.

Quanto vale uma vida?

Alguns fatos, mesmo separados pelo tempo, se conectam por algo muito maior do que a data em que aconteceram. Eles nos obrigam a olhar para dentro e perguntar: que tipo de sociedade estamos nos tornando?

Há algum tempo, dois homens foram flagrados furtando milho em uma propriedade rural da região. Foram cercados, agredidos, espancados, amarrados e arrastados pelo milharal. Um saiu com hematomas. O outro sofreu fraturas graves.

Mais recentemente, um homem entrou em um mercado no Parque Colinas e furtou uma garrafa de bebida alcoólica. Foi perseguido e espancado com extrema violência em uma área de mata. Não resistiu e morreu após duas paradas cardiorrespiratórias. O responsável pelas agressões fugiu e está sendo procurado.

É preciso afirmar com clareza: roubar é crime. Não existe justificativa para o furto. A lei deve ser respeitada. A ordem social precisa de limites.

Mas existe uma linha que não pode ser ultrapassada.

Desde quando um furto passou a ser punido com espancamento coletivo? Desde quando um bem material passou a ter mais valor que a vida humana?

É compreensível que exista revolta. É verdade que muitas pessoas perderam a confiança no sistema. Há quem sinta que a impunidade impera. Mas revolta não é justiça. Justiça não é vingança. E vingança nunca construiu uma sociedade melhor.

Temos instituições para lidar com o crime: Polícia, Ministério Público e Judiciário. Quando alguém decide fazer justiça com as próprias mãos, rompe-se o princípio básico da civilização: o respeito à lei.

Como cristão, não posso deixar de lembrar que a vida é dom de Deus. A vida é sagrada. Nenhum erro apaga a dignidade de alguém como ser humano.

Jesus nunca relativizou o pecado, mas também nunca autorizou a violência como forma de correção. Ao contrário, ensinou misericórdia, responsabilidade e consciência.

Defender a vida não é defender o crime.

Condenar o erro não exige destruir o ser humano.

Precisamos discutir segurança pública. Precisamos cobrar eficiência do Estado. Precisamos enfrentar as causas sociais, o abandono, a dependência química e a desestrutura familiar. Mas nada justifica transformar cidadãos em juízes e executores.

Se aceitarmos que pequenos delitos sejam respondidos com violência extrema, amanhã qualquer conflito poderá ser tratado da mesma forma.

A pergunta continua ecoando: quanto está valendo uma vida?

Um saco de milho?
Uma garrafa de bebida?
Alguns minutos de fúria?

Uma cidade forte não é aquela que reage com violência. É aquela que preserva a vida mesmo quando pune o erro.

Porque, quando a vida deixa de ser prioridade, todos nós perdemos.

 

 

Rodrigo de Souza: Cidadão comprometido com a vida, com a justiça e com a dignidade humana.

 

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ESCRITORIO ESCARAMBONI